domingo, 17 de agosto de 2008

"O Capital urubu."




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Que sistema é este que consome vidas em troca de negócios? Se considerarmos o Mercantilismo como precondição para o capitalismo global em que vivemos, podemos dizer que este sistema possui mais de 500 anos, sem que consiga, se é que tenta, diminuir a dor dos famintos do planeta. Pelo contrário, por regra o capitalismo é o sistema onde se privilegia a circulação de mercadorias e o grande Capital que se alimenta de Capital gerado pela força de trabalho, cada vez menos protegidas por leis trabalhistas, graças a ideologia neoliberal, que prega e financia as classes dirigentes nacionais à diminuir a força do Estado. As instituições que compõem o Estado-nação hoje, tem seus recursos voltados para o financiamento dos desejos das burguesias nacionais, recursos estes que quando sobram dos pagamentos de dívidas feitas pelas classes dominantes são empregados como óleo para fomentar a máquina capitalista.


O resultado deste processo é o aumento do número de deserdados e famintos que se espalham pelo mundo. A África é o exemplo maior. Recortada pela sanha imperialista européia, no período de descolonização através das lutas de libertação nacionais, deixou os europeus à herança das guerras civis entre povos que no recorte imperialista acabaram fazendo parte de Estados artificiais. Povos com culturas e línguas diferentes se viram pertencendo e disputando o controle destes estados através de disputas armadas com armamento financiado por grandes corporações produtoras de armas, principalmente estadunidenses. Boa parte deste continente hoje, encontra-se sob guerra civil, produzindo a fome e a barbárie, contabilizando segundo o fotografo Sebastião salgado, mihões de pessoas em fuga de disputas insanas pelo poder político.


Não é diferente a situação da América Latina onde dados oficiais comemoram a diminuição de miseráveis. Dados maquiados com metodologias de pesquisas manipuladas que condenam mais de 150 milhões de pessoas à miséria absoluta, comandados pelas receitas dos organismos internacionais que dirigem o capital financeiro e obedecido a partir do emblemático “Consenso de Washington” (1992) pelos vários governos das Américas, incluindo o do senhor Luís Lula da Silva.


A China capitalista, comemorada como potência nacional do século XXI mantém sob censura e tortura milhões de ativistas e militantes pelas liberdades democráticas, e segundo dados oficiais, possui hoje 53 mil trabalhadores em regime de escravidão, fora os que trabalham por salários de fome.Existe um grande movimento nacional e internacional que prega a suspensão dos próximos jogos olímpicos pela defesa dos direitos humanos que o governo chinês, comandado pelo PC stalinista-maoista,ditadura que se disfarça sob o véu dos símbolos do antigo regime, viola descaradamente.


O Oriente Médio sofre com a intervenção estadunidense que busca subjugar as nações árabes aos interesses econômicos do petróleo e projetos de gasodutos, com o apoio europeu, incluindo a Rússia e aliados como alguns grupos de poderosos árabes e Israel.


O “Império da maldade” , Estados Unidos, por conta das grandes corporações e do mercado financeiro internacional comandam este planeta, direta e indiretamente no caminho do caos , sujeitando bilhões de famílias à fome. Segundo dados oficiais, são 3 bilhões de pessoas que vivem abaixo da linha da miséria(com menos de 1 dólar por dia), mais de um bilhão que não tem acesso à água potável.


O sistema competitivo da selva global-capitalista estimula a corrupção dos Estados Nacionais para que ele subsista diante dos interesses econômicos, desviando a atenção dos seus povos para sangria do roubo do dinheiro público, enquanto sob a batuta da psudo legalidade as mega-corporações sugam os esforços dos trabalhadores, que convivem com a diminuição dos postos de trabalho, a precarização dos empregos que ainda existem ,e a perda de direitos trabalhistas e previdenciários em busca de sustentação da festa capitalista.


A fotografia é obra de Kevin Carter de 1993, no Sudão que mostra uma menina subnutrida e faminta em marcha para um abrigo que distribui comida a um km dali, que cai esgotada sobre a espreita de um urubu que aguarda pela morte desta. O autor recebeu o prêmio pulitzer de 1994, e se suicidou por não agüentar os questionamentos sobre o porquê de não ter salvado a criança. Talvez ele tenha contribuído para salvar milhões de outras crianças que sobrevivem no mundo inteiro sob a guarda do Urubu-capitalista, que promove e legitima esta situação enquanto circulam pelo planeta diariamente TRILHÔES de dólares sobre o controle de 200 famílias que se locupletam com as riquezas produzidas pelos trabalhadores do mundo.


Enquanto houver capitalismo, haverá fome, enquanto se sustentar este moribundo sistema não haverá paz. Como diz o escritor Eduardo Galeano, “No mundo das super tecnologias, nos tempos da microbiologia, uns são mercadores, outros somos mercadorias”. "


Estava apenas procurando a imagem, pra poder fazer um post sobre o assunto, mas então achei esse post em um blog. Explêndido.
Disse tudo o que eu queria dizer, e ainda mais um pouco. Eu realmente não gosto de ficar fazendo citações, mas dessa vez eu tive que fazê-lo.
Obrigado pelo ótimo post, Wallace, e parabéns pelo magnífico blog!

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Tão simples...

Para quê ser você mesmo quando pode fingir ser algo que é -teóricamente- 'melhor que você mesmo'?



Pra quê ter sua própria opinião, se podemos ler revistas e jornais que já trazem uma opinião formulada instantânea? 'Adicione água, leia um pouco e obtenha uma ótima opinião/posição. Nos permita enfiar nossas idéias em sua cabeça, faça também a gentileza de adorar o mesmo candidato que nós, assim ele nos dará um agrado'. Como disse Raul Seixas, "Eu não preciso ler jornais, mentir sozinho eu sou capaz."
Pra quê ter seu próprio gosto, se pode seguir as massas? Pra quê formular sua opinião com cuidado, ser o quão eclético você for, gostando do que gostar, se você pode simplesmente ser um 'headbanger que odeia sertanejo'?


Pra quê fazer revoluções? Já tem 'idiotinhas idealistas' demais no mundo, certo? Não é, não é, não é? Não é, não.





Pra quê se preocupar com o mundo, se você pode gastar seu tempo com coisas mais estimulantes, como jogar seu video-game favorito? Pra quê ir atrás do amor verdadeiro se você pode ir na festinha do seu amigo e -Serei mau- pegar umas vadiazinhas?











Pra quê ser o que você é se você pode simplesmente seguir estilos, ser um punk, um skinhead, um emo, um -O piór- gótico, headbanger, thrasher, etc? Pra quê ser você, com seus defeitos e qualidades, se pode tentar imitar aqueles que 'as massas' gostam, ou simplesmente imitar as massas? Como era mesmo aquele provérbio? "Se você quer que as pessoas pensem que você é muito inteligente, simplesmente concorde com elas."


Pra quê se expressar, pra quê deixar que saibam sua opinião, se pode simplesmente dramatizar tudo e fazer sucesso por um momento? Vai saber.

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Se os tubarões fossem homens

"Se os tubarões fossem homens, perguntou ao senhor K. a filha de sua senhoria, eles seriam mais amáveis com os peixinhos? Certamente, disse ele. Se os tubarões fossem homens, construiriam no mar grandes gaiolas para os peixes pequenos, com todo tipo de alimento, tanto animal quanto vegetal. Cuidariam para que as gaiolas tivessem sempre água fresca e tomariam toda espécie de medidas sanitárias.

Se, por exemplo, um peixinho ferisse a barbatana, lhe fariam imediatamente um curativo, para que não morresse antes do tempo. Para que os peixinhos não ficassem melancólicos, haveria grandes festas aquáticas de vez em quando, pois os peixinhos alegres tem melhor sabor do que os tristes. Naturalmente haveria também escolas nas gaiolas. Nessas escolas os peixinhos aprenderiam como nadar para a goela dos tubarões. Precisariam saber geografia, por exemplo, para localizar os grandes tubarões que vagueiam descansadamente pelo mar. O mais importante seria, naturalmente, a formação moral dos peixinhos. Eles seriam informados de que nada existe de mais belo e mais sublime do que um peixinho que se sacrifica contente, e que todos deveriam crer nos tubarões, sobretudo quando dissessem que cuidam de sua felicidade futura. Os peixinhos saberiam que este futuro só estaria assegurado se estudassem docilmente. Acima de tudo, os peixinhos deveriam evitar toda inclinação baixa, materialista, egoísta e marxista, e avisar imediatamente os tubarões, se um deles mostrasse tais tendências. Se os tubarões fossem homens, naturalmente fariam guerras entre si, para conquistar gaiolas e peixinhos estrangeiros. Nessas guerras eles fariam lutar os seus peixinhos, e lhes ensinariam que há uma enorme diferença entre eles e os peixinhos dos outros tubarões. Os peixinhos, iriam proclamar, são notoriamente mudos, mas silenciam em línguas diferentes, e por isso não podem se entender. Cada peixinho que na guerra matasse alguns outros, inimigos, que silenciam em outra língua, seria condecorado com uma pequena medalha de argaço e receberia um título de herói. Se os tubarões fossem homens, naturalmente haveria também arte entre eles. Haveria belos quadros, representando os dentes dos tubarões em cores soberbas, e suas goelas como jardim que se brinca deliciosamente. Os teatros do fundo do mar mostrariam valorosos peixinhos nadando com entusiasmo para as gargantas dos tubarões, e a música seria tão bela, que seus acordes todos os peixinhos, como orquestra na frente, sonhando, embalados, nos pensamentos mais doces, se precipitariam nas gargantas dos tubarões. Também não faltaria uma religião, se os tubarões fossem homens. Ela ensinaria que a verdadeira vida dos peixinhos começa apenas na barriga dos tubarões. Além disso, se os tubarões fossem homens também acabaria a idéia de que os peixinhos são iguais entre si. Alguns deles se tornariam funcionários e seriam colocados acima dos outros. Aqueles ligeiramente maiores poderiam inclusive comer os menores. Isso seria agradável para os tubarões, pois eles teriam com maior freqüência, bocados maiores para comer. E os peixinhos maiores detentores de cargos, cuidariam da ordem entre os peixinhos, tornando-se professores, oficiais, construtores de gaiolas, etc. Em suma, haveria uma civilização no mar, se os tubarões fossem homens."

Bertold Brecht